L'après-midi d'un faune (A tarde de um fauno) é um dos poemas mais famosos de Stéphane Mallarmé, escrito em 1865 e publicado onze anos depois, com ilustrações do pintor impressionista Edouard Manet. O poema conta a história, em clima sensual, de um fauno que toca sua flauta nos bosques e fica excitado com a passagem de ninfas e náiades, mas tenta alcançá-las em vão. Então, cansado e triste, cai em um sono profundo e passa a sonhar com visões que o levam, afinal, a atingir os objetivos que não tinha alcançado dentro da realidade. A tarde de um fauno Stéphane Mallarmé (Écloga 1865-1875) O fauno: Estas ninfas quero eu perpetuar. Tão puro, o seu claro rubor, que volteia no duro ar pesando a sopor. Foi um sonho o que amei? Massa de velha noite, essa dúvida,sei, muito ramo subtil estendendo, provava meu engano infeliz, que enganado tomava por triunfo,afinal um pecado de rosas. Reflitamos. Quem sabe as mulheres que glosas são configurações de anseios que possuis? Repara na ilusão que emana dos azuis e frios olhos,fonte em pranto, da mais casta Suspiros, toda, a outra - alegas que contrasta, como brisa diurna e tépida que passa? Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso - ameaça a todo matinal frescor de suave fama se uma fonte murmura, esta flauta a derrama no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes; nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em chuva árida espalha, e senão no horizonte, em sua calma sem falha, o sereno bafor da pura inspiração, visível, regressando ao céu, por ascensão. Ó plagas sículas e calmas, da lagoa, que saqueadas tem minha vaidade, à toa, e tácita- no amor das flores destes páramos –DIZEI "que aqui me achava em busca destes cálamos sonoros quando além, por entre as brandas linhas de ouro glauco, a fulgir nas fontes e nas vinhas, eis ondeia uma alvura. animal em repouso; mas que logo também, ao lento e langoroso prelúdio linear da avena de cinabre vôo, de cisnes não, de náiadas se abre." A hora fulva que arde inerte não revela a astúcia, de intenções de aliciação tão bela. Sinto-me despertar sob um fervor de antanho, onda antiga de luz envolvendo-me em banho, eu, lírio, um dentre vós segundo a ingenuidade! Mais que o nada tão doce, essa espontaneidade, beijo, sussurro suave e soma de perfídia, meu corpo, sem mais prova, atesta ainda, insídia, uma oculta mordida augusta, de alto dente; mas, vede, arcano tal tomou por confidente o gêmeo junco, par que sob o azul se soa; que recebendo em si o sôpro, logo entoa e sonha, em solo longo e leve, que a beleza em derredor está a mudar-se com presteza dentro na confusão de si mesma e do canto; e nas modulações altas de amor,entanto evanescendo esvai-se apaga-se a teoria clara, de dorsos e de flancos; ó magia de uma sonora e vã monótona mesmice! Frauta maligna, órgão de fugas, sem ledice, vai, fístula, florir no lago e ali me aguarda. Eu, cheio de rumor altivo, já me tarda falar de deusas; por idólatras pinturas, de suas sombras irei tomar-lhes as cinturas. Assim, quando ao racimo extraio-lhe a substância /sorvo e contra a mágoa apuro a minha vigilância, e rindo soergo no ar o já vazio cacho e, na pele de luz assoprando, eu me acho -ébrio- capaz de então a tarde toda o olhar. Outras RECORDAÇÕES, vamos, ninfas, lembrar “Meus olhos entre o junco... além uma figura imortal que se banha e a cálida brancura luminosa do corpo em onda leve imerge. Sôbre o áureo esplendor dos cabelos converge um claror e um fremir de fulva pedraria! Corro; mas a meus pés, jungidas na agonia do langor deste mal de serem dois em um, vejo duas dormindo, em abraço comum. Como estavam tomei e trouxe a esta eminência desamada da sombra e dela sem frequência; aqui se esvai ao sol das rosas o perfume; mas para o nosso embate a força aqui me assume." Ó furor virginal, eu te adoro, ó concisa fúria de corpo nu, fardo nu que desliza fugindo ao lábio ardente e a refulgir livores de ampla trepidação da carne em seus pavores! E isso, da inumana à tímida que vê já perdida a inocência e dos olhos revê uma lágrima louca ou um tanto menos triste. "Meu crime foi querer, na fôrça que me assiste, apartar dividir um tufo desgrenhado de beijos e de amor, dos deuses bem guardado. Na hora em que esconder eu ia o riso ardente na feliz maciez de urna, só - e contente procuro no condor de pluma em que se agita o sabor da emoção que vívida palpita na sua ingênua irmã, pequena, que não cora eis de meus braços que se esquecem foge fora tal ingrata cruel, que na impiedade esfria a estuosa ebriez em que me consumia." Foi pena. Irei buscar alhures a esperança de em meus chavelhos ver, enastrada, uma trança. Bem sabes, ó paixão, que rubras mui vermelhas cada cereja abriu seu murmurar de abelhas. E o nosso sangue vai, enviado em seu ensejo, percorrendo o pendor eterno do desejo. Na hora em que de ouro e cinza este bosque se pinta logo em festa se exalta a folharia extinta. Ó Etna, é junto a ti! Vênus vem pelos ares. Leve na lava pousa ingênuos colcanhares enquanto sonolento as chamas tens em calma. Tenho pois a rainha! Ó dura pena... A alma de palavras vazia e o corpo em letargia sucumbem afinal ao fero meio-dia. Cumpre dormir assim, no olvido, de mansinho, deitado nesta areia. Ó que delicia ao vinho a boca oferecer e a seu astro eficaz! Par, adeus: Quero ver como ûa sombra se faz. Belo Horizonte, 18.08.1959 [Nota do tradutor: "relida em 02.1963 e achada ruim"]
