O libertador

Jamil Almansur Haddad “empalhando um raio de lua” ao traduzir Odes “anacreônticas”

Este vinho me aquece o coração.
Eu canto, quando o bebo, às suaves Camenas
a mais sonora e embriagante canção.
Se eu bebo voam pelo céu as minhas penas,
meu lasso pensamento
parte com o vento.

Se eu bebo, vem Dionisos, o Libertador,
e ebriado leva-me consigo
para um jardim amigo,
sussurrante de fonte e odoroso de flor.

Se eu bebo o vinho que me inspira e escalda,
passo a tecer de rosa e mirto uma grinalda,
cinjo a fronte e depois principio a cantar
uma canção sentida
que se espalhando pelo imenso ar
celebra o sonho e a glória e a delícia da vida.

Se eu bebo o vinho de sete cores como o arco-íris,
visto o meu corpo de essências odorosas,
e tendo aos braços, coroada de rosas,
uma virgem, celebro a langue e fausta Kypris.

Se eu bebo em horas de cisma, nas taças fundas meu espírito se abisma.
A Parca contra a qual não vale escudo
numa última embriaguez me levará daqui.
E há de tomar-me tudo
menos o que eu bebi.

Dioniso